Consolidação e Transformação
A oitava edição do FRACTAL Funchal Fest segue para Oeste.
Entre o Bairro da Nazaré e as Virtudes. Esta edição pretende mostrar vários locais, para três propostas abertas, onde esta parte da cidade procura-se densificar, relegar uma matriz agrícola, adquirir um modo urbano distinto mas encaixado no anonimato de uma periferia urbana europeia. Começando no Bairro do Nazaré, num percurso com início numa terra de ninguém. Um lugar de toque, ainda hesitante, entre um acesso primário, radical na estruturação deste sítio, e um lugar que emergiu, uma urbe de iniciativa pública, fundacional e central para uma cidade entre o vale e os picos sobranceiros. Em intervenção sobre a questão mais emergente de uma cidade, alojar e habitar, premente na década dos anos 80, saída de um clamor coletivo atribuída pela Autonomia, este Bairro, como ensaio urbanístico, respondeu à problemática da carência de habitação que actualmente reflete-se. De um campo aberto de hortas e pomares para um ensaio saído dos modelos modernistas, de um esgar utópico social e urbano.
Fundado por uma sociedade que aspira a essa modernidade, tomada forma, construída, transitou e acolheu a expansão urbana das décadas seguintes, onde as famílias jovens da altura hoje constituem uma comunidade com instituições e associações que se apoiam mutuamente, que contribuem para o seu espaço público.
Seguindo em direção à vertente do vale dos Barreiros, por uma azinhaga próxima da Capela da Nazaré, na revelação da totalidade do Funchal, encontra-se, próximo, uma outra densidade diferente, outra forma de construir cidade. Uma paisagem pós-urbana, no sentido dessa “pós-promessa” da prosperidade da periferia baseada no automóvel, da ascensão vertical e da formalidade inventiva dos edifícios, alternada por jardins abandonados e moradias de excelsas narrativas tradicionais. A memória está lá, em segundo plano, largos passeios, novas monumentalidades topográficas, canteiros e recintos ajardinados que constituem um tecido vibrante, porventura, estéreo, desprovido de presença humana, concentrada numa só rua.
Esta vertente do vale estende-se e retraí-se, flui e interrompe-se por entre outras novas estruturas que sobrepõem-se: a levada e o viaduto, a avenida e a vereda. A comunidade é uma percepção. Instituída por obrigatoriedade, mantida por condomínios, gerida pelo edil central e distante. Mas há cidade. Aquela que evoluiu passo a passo. A questão coloca-se de modo antagónico. Entre um ideal e uma especulação de ideias. Entre um lugar de olhares que cresceram entre si e que gozam da sua pensão. Outro que está em efervescência entre impactos de novas ocupações, arraso de passados marcos, cafés, lojas e empresas que competem pelo espaço público, negligenciando, constrói o cenário, que resume a cidade à varanda própria.
Estas duas dinâmicas constituem entre elas uma síntese. Quiçá para um futuro, porventura o festival do FRACTAL lança uma linha de diálogo sobre estas amostras de cidade. Onde uma certa coerência e uma certa contradição trazem à tona questões de (re)conciliação, memória, sociabilidade, espaço público versus privado ou de mera contemplação. Acabamos o percurso naquilo coberto ou escondido, do resquício, não sobre mas a observar a construção das novas habitações públicas e a interrupção da cidade.
José Gustavo Freitas